14 de maio de 2012

Para um dia chorão e uma alma chuvosa.

"Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.


Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas."


E então, que quereis? - Maiakóvski








13 de abril de 2012

lição de hoje:

"Talvez os sexos tenham mais afinidade do que se considera, e a grande renovação do mundo talvez venha a consistir no fato de que o homem e a mulher, libertados de todos os sentimentos equivocados e de todas as contrariedades, não se procurarão mais como adversários, mas como irmãos e vizinhos, unindo-se como seres humanos, para simplesmente suportar juntos, com seriedade e paciência, a difícil sexualidade que foi atribuída a eles.
(...) Por isso, caro senhor, ame a sua solidão e suporte a dor que ela lhe causa com belos lamentos. (...) Alegre-se com seu crescimento, para o qual não pode levar ninguém junto, e seja bondoso com aqueles que ficam para trás, seja seguro e tranquilo diante deles, sem perturbá-lo com as suas dúvidas nem assustá-los com uma confiança ou alegria que eles não poderiam compreender."



Cartas a um jovem poeta - Rainer Maria Rilke

29 de março de 2012

coisa boa de ler

A Relação privilegiada

"Ele não buscava a relação exclusiva (posse,ciúme,cenas); Também não buscava a relação generalizada,comunitária,o que ele queria era, a cada vez,uma relação privilegiada,marcada por uma diferença sensível,levada ao estado de uma inflexão afetiva absolutamente singular,como a de uma voz de timbre incomparável; e,coisa paradoxal,ele não via nenhum obstáculo em multiplicar essa relação privilegiada. Tudo era privilégio,em suma; A esfera amical estava assim povoada de relações duais (daí uma grande perda de tempo: era preciso ver os amigos um a um: resistência ao grupo,à turma,à festinha). O que se buscava era um plural,sem igualdade,sem in-diferença."

Roland Barthes

22 de março de 2012

Meus sentimentos

Sinto muito,
Por entregar meu corpo, ensinar meu sexo, ensinar algo do amor...
Algo.
Qualquer coisa a ser escrita.
Ciúmes, histeria, obsessão... 
Envoltos em hormônios fertilmente desregulados.
Sinto.
Por aprender a beber. Por aprender tanto. 
Por abandonar minha ninfa, enterrar Apolo e arremessar tesouros...
No entanto, sinto.
Sinto a ternura de todos os enfeites fúnebres de Manuel.
O batuque novo do samba antigo do novo amigo...
E sobrevivo.
Para sentir cada emoção, cada clichê
Do acreditar, nesse possível último romance... 

11 de março de 2012

e o domingo foi feito pra isso.

"A frustração torna-se desespero quando a pessoa começa a por 
em dúvida a própria capacidade de significar qualquer coisa para alguém."
de R.D.Laing, em "O Eu e Os Outros"



19 de fevereiro de 2012

"Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde"

Poema Começado no Fim de Adélia Prado

5 de fevereiro de 2012

Inferno ou sorte.

Romance relâmpago com sabor de amor tranquilo é o fruto proibido do paraíso. 




9 de janeiro de 2012

Grande

Eu quero saber de gente grande!
Quero saber de gente que sabe o que é paixão e que sabe o que é mudar planos;
Quero saber de gente que se submete ao amadurecimento, nem que seja forçado, esfregado na cara pela vida, mas que entende o recado.
Vejam, em vendilhões do tempo, Jesus desce o cacete em quem não entende.
Quero saber de gente que entende!
De gente que sabe que sofrer faz parte da vida, que mansidão tem limite e paciência também.
Gente que sabe que tudo pode ser uma droga dependendo da dosagem.
Que sabe respeitar e que não brinca com emoções. 
Que sabe o que é esperar o tempo.
Eu quero saber de gente que sabe o que é esperar!
Quero saber de sentar no meio-fio, esperando ônibus sozinha, num sábado à noite, desacreditada num ser humano pequeno que se esconde atrás de bíblia, vídeo-game e autoajuda barata, pra receber o carinho de um amigo pra ver o sol nascer avermelhado refletindo no mar...
Eu quero é saber de gente que sabe o que é ser grande. 
Gente que sabe valorizar cada presente da vida.



8 de janeiro de 2012

porque a violência vem na mesma medida da doçura.

"Até onde ser inteligente para ser idiota?
Os outros disseram que ela era idiota.
Então ela se fez de idiota para não ver até onde os outros 
eram idiotas por achar que ela era idiota, 
pois não ficava bem achar que eles eram idiotas.
Ela preferiu ser idiota e boa
a ser inteligente e má.

É mau ser idiota: ela tem que ser inteligente para ser idiota e boa.
É mau ser idiota, pois assim demonstraria até onde os outros foram idiotas quando lhe mostraram o quanto era idiota."


- de R.D. Laing, em "Laços".



5 de janeiro de 2012

JL, sugestão de hj.

"Pelo silêncio que a envolveu, por essa
aparente distância inatingida,
pela disposição de seus cabelos
arremessados sobre a noite escura:



pela imobilidade que começa
a afastá-la talvez da humana vida
provocando-nos o hábito de vê-la
entre estrelas do espaço e da loucura;



pelos pequenos astros e satélites
formando nos cabelos um diadema
a iluminar o seu formoso manto,



vós que julgais extinta Mira-Celi
observai neste mapa o vivo poema
que é a vida oculta dessa eterna infanta."



Pelo silêncio, de Jorge de Lima

31 de dezembro de 2011

sem você, ele para

"tempo cronológico. fuááá.
tempo do escravo do trabalho 
do homem mercado marcado para morrer.
o tempo não passa igual pra mim ou pra você
(às vezes com você o tempo voa. sem você, ele para)
cada um tem um tempo a ser respeitado.
danem-se os relógios. abominem-se os calendários.
nosso corpo nossa alma requerem outros tempos
não esse do relógio de ponto, da folhinha na parede
percebê-los respeitá-los é o que quero agora"



de Chacal.

27 de dezembro de 2011

eu morri.

Arranquei tudo de mim
abri o fecho 
para o frio entrar. 
Esse arrepio
veio do novo.
Encontro é acreditar.
Promessas são para trair,
paixões são para perder,
amor é para respirar. 
Ser custa esperar, 
ter custa encaixar 
desfazer é se lançar.
Releio para perder o medo 
pois o possível do impossível esse sim é o abismo.
Achei... 
que bastava um colo pra recomeçar,
uma saudade pra atormentar, 
e uma amizade pra distrair... 
Mas eu morri 
pra descobrir a sorte de ter minha alma por perto.


Hoje,
tudo menos minha poesia.
Estou contaminada pela não-paciência de calar
monstros compram distração de miseráveis...
Participo do jogo.
A interrupção é certa
Entorpecer é necessário.


25 de dezembro de 2011

tudo é certo e necessário.

Continuo colecionando flores mortas,
leituras inacabadas e estagnações.
Talvez, eu ainda ame algo...
Estou acumulando cheiro de guardado.
ouso a não-obsessão. 
coleciono promessas de vida...
Aqui, no meu coração, 
tudo é certo e necessário.
E em tempos, visito abismos.

24 de dezembro de 2011

onde há vaidade, não há amor.

"Se dermos aos nossos instintos a liberdade de agir sem restrições, 
eles poderão voltar-se contra nós e despedaçar-nos"

Sobre o mito de Ártemis, em "Jung e o Tarô - Uma Jornada Arquetípica" de Sallie Nichols 

21 de dezembro de 2011

8 de dezembro de 2011

Aprendi:
não deixarei mais
grandes acontecimentos
escorrer pelas mãos.



7 de dezembro de 2011

Saio para o amor
ensaio a obsessão...
Ah faça não... faça não...
Hoje, eu sai pra assustar."


(e um "uuuuh"  inesperado no Sarau do Burro)

30 de novembro de 2011

protesto.

Contra qualquer lei do assustar
quero espelhar em palavras
Ser livre, ser simples, ser sua
e me espalhar...


(contra qualquer paixão que não carrega o mínimo de obsessão)

28 de novembro de 2011

Canção do Amor Imprevisto (Quintana, sempre)

“Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.
Mas tu apareceste com tua boca fresca de madrugada,
Com teu passo leve,
Com esses teus cabelos…
E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender
nada, numa alegria atônita…
A súbita alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos!”


23 de novembro de 2011

Consumindo, processando, digerindo, suspendendo.

E quase um mês depois,  volto pra dizer que o encontro foi lindo! 
Mas ainda estou sem condições de poetizar... estou numa absorção infernal! 


Meu pai, suas filhas e netos!

27 de outubro de 2011

quando a chuva de verão se faz necessária.

E quando eu decidi fazer (quase) tudo que nunca faria na minha vida... eis que ela traz algo que eu não esperava mais...

Há alguns meses, decidi cometer suicídios psicológicos... ou queda-livres em abismos...  explico:
Pra começar, me matriculei num curso "superior" de contabilidade... E lá fui eu me relacionar com pessoas completamente fora do contexto da vida que esperei ter um dia... 
Insatisfeita (com o curso e com algumas pessoas), sai gastando compulsivamente... saídas e compras descabidas... resultado: estourei  o cartão de crédito! Peguei empréstimo, estourei o cartão de crédito de novo... Enfim, quebrei a porra do cartão de crédito. 
Tranquei a faculdade.
Ainda insatisfeita, e num lapso adolescente, fui pra Galeria do Rock. 
Comprei camiseta de banda, camisa de flanela e coloquei alargador na orelha.
Adorei o alargador! E ao mesmo tempo detestei ter poucas opções para brinco. Portanto, já tirei e minha orelha já voltou ao normal! Ufa.
Não contente, enviei email pra ex-namorado... quebrei a cara, óbvio... e decidi sair pra balada loucamente (e novamente)... 
Foi aí que fiz novos amigos! Maravilhosos diga-se de passagem! E o melhor: do lado de casa! Um presentão da vida!
Corajosa, decidi tatuar! Tatuei: "Afeto", símbolo do I Ching, achei o máximo e vou preencher meu corpo inteiro de rabiscos (brincadeirinha). 
E quando achei que só saltar de paraquedas ou desfilar numa escola de samba completaria o ano das maiores loucuras... eis que um contato via rede de relacionamentos muda tudo... 
Meu pai (meu pai!!!) após 9 anos sem dar sinal de vida, aparece!!! 
E no bom estilo filho pródigo de ser!
De repente, em poucas semanas, um milagre, uma chuva de verão, promessa de vida no meu coração! Muda todo o rumo da prosa! E eu não poderia deixar de escrever tudo isso aqui!
Grande parte das tentativas poéticas, foram inspiradas na humanidade que esse homem plantou  em minha vida! Ou melhor, nossas - mãe e irmãs também.
E não foram só tentativas poéticas... Esse homem deixou  rastros de neuras e destruições em  muitos relacionamentos afetivos... 
Aliás, foram muitas as 'lições' que fizeram com que admirasse cada dia mais minha mãe.  Tudo seguido de perdões e autoperdões por todas as cagadas realizadas de todos os lados... 
E claro, amadurecimento contínuo a cada aniversário distante.
Enfim, o principal: aprendi, que além - bem além de todas as merdas - o amor é incondicional! Sim minha gente! Meu pai está de volta! 
Nunca pretendi tanto ser feliz do que ter razão! 


Domingo será o grande encontro, um almoço... espero que ninguém morra até lá... pois, apesar de estar satisfeita até o momento (doente, confusa, mas satisfeita), estou louca pra vivenciar essa grande experiência do "Vamos abrir as portas da esperança..." 


E que a sorte continue ao nosso lado!


A música perfeita pro contexto.

13 de outubro de 2011

por favor...

"Mas o engraçado é que,
assim que encontrou o lobo, 
a Chapeuzinho Amarelo
foi perdendo aquele medo, 
o medo do medo do medo..."
Chapeuzinho Amarelo - Chico Buarque

12 de outubro de 2011

"Experiência é o nome que todo mundo dá aos próprios erros."
Oscar Wilde

2 de outubro de 2011

O tempo não vai parar.

Já sabia sobre o vento,
só não sabia que seria tão rápido,
tão intenso.
Ele veio.
Eu ainda persigo velhos sonhos
com a metralhadora carregada
e distante de qualquer poesia...
Por conta de todo o desespero 
despertei novos vícios 
errei, errei o tempo todo
E como ele não parou
Parti, pois não deixei o amor um minuto sequer.

28 de setembro de 2011

Aqui estou ardendo a minha eternidade


"Voltaria o silêncio – seria uma quietude de nave em Senhor Morto
Numa onda de dor eu tomaria a pobre face em minhas mãos angustiadas
Auscultaria o sopro, diria à toa – Escuta, acorda
Por que me deixaste assim sem me dizeres quem eu sou?

E o olhar estaria ansioso esperando
E a cabeça ao sabor da mágoa balançando
E o coração fugindo e o coração voltando
E os minutos passando e os minutos passando...

No entanto, dentro do sol a minha sombra se projeta
Sobre as casas avança o seu vago perfil tristonho
Anda, dilui-se, dobra-se nos degraus das altas escadas silenciosas
E morre quando o prazer pede a treva para a consumação da sua miséria.

E que ela vai sofrer o instante que me falta
Esse instante de amor, de sonho, de esquecimento
E quando chega, a horas mortas, deixa em meu ser uma braçada de lembranças
Que eu desfolho saudoso sobre o corpo embalsamado do eterno ausente."



trecho de "O olhar para trás" de Vinicius de Moraes

****

Minha poesia...
ficou no exato momento 
que entrei no jogo de não olhar para trás. 
Apostei, falei mais do que devia, 
aumentei a distância entre nós...
O trem partiu e ainda insisto na verborragia 
dos ecos da minha angústia.

26 de setembro de 2011

Amanheci para persegui-la.
e em questão de segundos, 
a obsessão precipitou a solidão 
Deixando minha alma 
feito objeto, no chão... 
Noites seguidas em fuga, 
dores inflexíveis crônicas... 
Beleza e juventude se esvaindo, 
e a lucidez tirando a paz...
O silêncio, um tiro na boca,  
uma cerveja, um encontro 
e daquela noite em diante, 
tão quente e tão viva...  desejei a eternidade.

25 de setembro de 2011

agora entendi porque esperei tanto...


"Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo te
mpo tempo..."
Caetano



16 de setembro de 2011

another try

Há dias sem escrever 
sobre mim algo ficou.
A poesia continua resistente.
Cada noite uma dor nova...
vulnerabilidade atingindo altas escalas... 
assim, quem sabe 
aproximo mais minha alma
da distância de meus delírios...

12 de setembro de 2011

tudo e um pouco mais.

"Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.

(...)

Ah, o tempo é o mágico de todas as traições... E os próprios olhos de cada um de nós, padecem viciação de origem, defeitos com que cresceram e a que se afizeram, mais e mais."  

O espelho - livro Primeiras Estórias - João Guimarães Rosa